Propriedade rural colaboradora do IZ teve todo o rebanho genotipado para kappa-caseína; conhecimento já é utilizado na seleção de animais e abre caminho para disseminação de genética de maior interesse produtivo
Uma parceria entre ciência e campo está ajudando a transformar o conhecimento genético dos búfalos em uma ferramenta prática para a produção de queijos. Em uma propriedade especializada na criação de búfalos, uma das primeiras fazendas a disponibilizar todo o rebanho para um estudo desenvolvido pelo Instituto de Zootecnia (IZ-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, os resultados da pesquisa já fazem parte das decisões de seleção dos animais.
A parceria foi construída a partir de uma demanda dos próprios produtores: entender melhor a relação entre a genética dos animais e o rendimento do leite na fabricação de queijo. O trabalho levou à genotipagem de quase mil búfalos para o gene da kappa-caseína (CSN3), formando, segundo o pesquisador do IZ, Aníbal Eugênio Vercesi Filho, uma das maiores populações de búfalos genotipadas para esse gene no mundo.
A kappa-caseína é uma proteína do leite diretamente relacionada ao processo de coagulação. No estudo desenvolvido pelo IZ, o foco está principalmente no alelo B, associado à maior rendimento na fabricação de queijos. Segundo Aníbal, búfalas com essa característica podem apresentar de 5% a 10% mais rendimento na transformação do leite em queijo. “É um processo que a gente chama de seleção assistida por marcador, que é uma ferramenta a mais que o produtor pode usar no seu processo de seleção”, explica o pesquisador.
A história começou quando representantes da cadeia bubalina levaram ao Instituto de Zootecnia a necessidade de atualizar os conhecimentos sobre a kappa-caseína em búfalos no Brasil. A partir da demanda, o IZ desenvolveu um projeto com apoio do CNPq e iniciou a formação de um banco de dados genéticos com animais de diferentes propriedades.
O produtor rural, Caio Rossato, de Pilar do Sul (SP), disponibilizou o rebanho para a pesquisa e, posteriormente, decidiu genotipar todos os animais da propriedade. “É uma instituição que ouve o produtor e cria os projetos através da demanda do produtor. O que acontece com a gente hoje, de dificuldade ou que a gente precisa melhorar, precisa avançar, a gente sempre procura o IZ”, afirma Rossato.
Com a genotipagem, a propriedade passou a ter um mapa genético do rebanho, identificando a característica de cada animal para a kappa-caseína e permitindo utilizar essa informação no planejamento dos acasalamentos.
Atualmente, dois reprodutores BB já são utilizados com o objetivo de melhorar o rendimento e a qualidade dos queijos. Um deles deverá ser encaminhado, em setembro, para uma central de coleta de sêmen, com a perspectiva de disponibilizar sua genética para outros produtores. “Se o IZ não estivesse nessa parceria, nós não teríamos nem o conhecimento de que esse animal era kappa-caseína BB. Foi através da genotipagem que fomos descobrindo quais eram os animais que tinham essa característica”, destaca o produtor.
Na última segunda-feira (10), a propriedade do Caio também se tornou um espaço de aprendizagem sobre a cadeia produtiva. Durante uma visita técnica vinculada à disciplina de Bubalinocultura da pós-graduação em Produção Animal Sustentável do IZ, alunos acompanharam a rotina da fazenda, conheceram os animais e observaram o funcionamento do laticínio.
A experiência permitiu apresentar aos estudantes não apenas os resultados da pesquisa genética, mas todo o caminho percorrido pelo leite até chegar aos produtos. “É importante para os alunos verem como funciona a rotina de uma fazenda de búfalo, depois conhecer o laticínio e ver o processo todo”, explica Aníbal.
Para a pós-graduanda e médica-veterinária Aluê Rodrigues, o contato direto com a propriedade ajuda a aproximar a formação científica das necessidades reais do produtor. “Eu acho que a gente ter a parte prática, a vivência, o contato com os animais e saber um pouco mais do produtor, quais são as dores e as dificuldades, permite que a gente consiga incorporar isso dentro do nosso âmbito de pesquisa e contribuir com eles”, afirma.
Toda a iniciativa mostra como a pesquisa pode percorrer diferentes etapas até chegar ao campo: uma demanda da cadeia dá origem ao projeto científico; a genotipagem identifica características de interesse; e o produtor passa a utilizar essas informações na seleção do rebanho. Mas a parceria entre o IZ e a cadeia de búfalos não se limita à kappa-caseína. O Instituto vem desenvolvendo diferentes trabalhos relacionados à espécie, em conjunto com produtores e entidades do setor.
Mais do que disponibilizar dados para o produtor, a parceria permite que a pesquisa acompanhe o resultado de suas próprias descobertas no campo. No caso da kappa-caseína, o que começou como uma demanda da cadeia já se transformou em informação genética aplicada à seleção de animais e agora deve avançar para uma nova fase de validação do impacto sobre o rendimento dos queijos.
SOBRE A APTA
A Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) é o órgão responsável por coordenar as atividades de pesquisa científica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Em sua estrutura estão presentes sete Instituições de Ciência e Tecnologia, com unidades distribuídas por todas as regiões do estado: Instituto Agronômico (IAC), Instituto Biológico (IB), Instituto de Economia Agrícola (IEA), Instituto de Pesca (IP), Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Instituto de Zootecnia (IZ) e APTA Regional.


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