O modelo: Economia Regenerativa do Bem-Receber

Crédito: Magnific

O modelo proposto pode ser chamado de Economia Regenerativa do Bem-Receber. Sua lógica é simples: toda viagem, evento ou experiência turística deve gerar mais valor para o território do que retira dele. Isso significa avançar da sustentabilidade — reduzir impactos negativos — para a regeneração — produzir impactos positivos mensuráveis sobre comunidades, ecossistemas, economias locais e relações interculturais.

Essa visão dialoga com a ideia de turismo regenerativo, que propõe que a atividade turística contribua intencionalmente para o florescimento das comunidades anfitriãs, da sociedade e do meio ambiente, por meio de abordagens sistêmicas e colaborativas. (Springer Nature Link) Também se aproxima da economia do “Doughnut”, de Kate Raworth, segundo a qual o desenvolvimento deve ocorrer dentro de um espaço socialmente justo e ecologicamente seguro, entre uma base social mínima e um teto ecológico que não pode ser ultrapassado. (Doughnut Economics Action Lab)

Na prática, esse modelo combinaria cinco dimensões.

A primeira é a dimensão econômica: criar mecanismos de receita recorrente para financiar a paz como bem público. Isso pode incluir fundos de legado turístico, contribuições voluntárias ou obrigatórias por evento, linhas de financiamento de impacto, compras públicas sustentáveis, parcerias com empresas, programas de certificação, marketplaces de experiências regenerativas e contratos de desempenho vinculados a indicadores sociais e ambientais.

A segunda é a dimensão social: assegurar que comunidades anfitriãs, trabalhadores, povos tradicionais, juventudes, mulheres, população negra, periferias urbanas e pequenos negócios participem da governança e da captura de valor. A economia social e solidária é uma referência importante nesse ponto, pois a OIT a relaciona a trabalho decente, inclusão, justiça social e desenvolvimento sustentável. (OIT)

A terceira é a dimensão ambiental: cada destino, rota ou evento deve ter compromissos claros de medição, redução e compensação responsável de impactos, com prioridade para regeneração de biomas, proteção de águas, restauração de áreas degradadas, redução de emissões, gestão de resíduos e fortalecimento de cadeias produtivas de baixo carbono. A Declaração de Glasgow para Ação Climática no Turismo propõe justamente caminhos como medir, descarbonizar, regenerar, colaborar e financiar a transição climática do setor. (Untourism)

A quarta é a dimensão cultural: o modelo precisa preservar a autenticidade dos territórios, evitando a transformação da cultura local em mercadoria vazia. O bem-receber latino-americano deve ser tratado como patrimônio vivo, não como performance turística. Isso implica remunerar mestres da cultura, cozinheiras tradicionais, artistas, guias locais, comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, caiçaras, sertanejas e periféricas, reconhecendo que a diversidade cultural é também infraestrutura de paz.

A quinta é a dimensão institucional: a Indústria da Paz precisa de governança policêntrica, com participação de governos, iniciativa privada, universidades, entidades do trade turístico, organizações comunitárias, organismos internacionais e investidores de impacto. A teoria dos bens comuns, associada a Elinor Ostrom, mostra que recursos compartilhados podem ser governados de forma cooperativa por comunidades e instituições quando há regras claras, monitoramento, participação e mecanismos de resolução de conflitos. Ostrom recebeu o Nobel de Economia por sua análise da governança econômica dos comuns. (NobelPrize.org)


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