Mulheres pedreiras são homenageadas em selo especial dos Correios

 

As mulheres pedreiras acabam de ganhar espaço na história postal, na tradição, na memória e na pesquisa no Brasil. A profissão de pedreira foi estampada pelos Correios em selo especial da série Profissões. A arte, feita por Fernanda Almeida e impressa na Casa da Moeda, mostra uma mulher usando um capacete de segurança vermelho, camisa e luvas azuis.


Ela ainda segura uma desempenadeira com massa de cimento em uma mão e uma colher de pedreira na outra, em uma pose firme e confiante, exaltando o empoderamento feminino. A cor do fundo é lilás, trazendo delicadeza na representação de uma profissão historicamente considerada tão masculina. A técnica usada foi ilustração manual e computação gráfica e a tiragem do selo foi de 90 mil folhas com 30 selos impressos. 


O edital do selo - material com a ficha técnica e explicações sobre a concepção da peça filatélica - traz a história de Karina Cândido, que foi aluna do Instituto Mulher em Construção, e que, há 15 anos, deixou a carreira de jornalista para recomeçar como pedreira. Karina conta que a adaptação não foi fácil. “Era um desafio físico e emocional. O sexismo foi forte. Me pagavam menos que um servente homem sem experiência.” 


O primeiro trabalho de Karina como pedreira veio depois de muita insistência. Ela chegava na sala e ficava pedindo emprego para os colegas. Depois, o professor do curso a convidou para atuar em obras que coordenava. “Levantei muito tijolo, muita casa, já fiz de tudo.” Hoje, como mestre de obras, Karina coordena equipes, sobe andaimes e ensina alunas a assentar tijolos. Ela também é professora de mulheres que querem aprender a profissão. “Cada uma busca na construção uma oportunidade de existir”, destaca.


Bia Kern, que fundou o Instituto Mulher em Construção em Canoas no ano de 2006, também é citada no texto dos Correios. Ela comemorou o lançamento do selo. “É um presente que ganhamos, nós mulheres, mulheres na construção civil, pedreiras. É algo que coloca a mulher no centro de um setor onde, por muito tempo, disseram que ela não podia estar. Mas ela está. Está nos canteiros, nas obras, nas reformas. Está aprendendo, trabalhando, liderando equipes, entregando qualidade. E mais do que isso: está mudando a própria vida”, afirma. 


Emocionada e com os selos na mão, Bia afirma que o selo representa muitas coisas: “É reconhecimento, mas também é um sinal de mudança. Porque quando a gente enxerga as mulheres pedreiras, a gente se legitima. E quando legitima, a gente abre espaço para muito mais mulheres chegarem”. Bia atua há duas décadas na capacitação de mulheres em situação de vulnerabilidade social para trabalharem na construção civil. Pelo menos 10 mil mulheres já foram impactadas diretamente pelo trabalho do Instituto e cerca de 40 mil pessoas foram impactadas de forma indireta. 


A profissão de pedreiro é uma das mais antigas e essenciais para a vida humana. Nada se levanta sem o trabalho deles e, também, delas. Embora a imagem da profissão ainda esteja associada aos homens, cada vez mais, mulheres conquistam espaço nos canteiros de obras. Segundo o IBGE, a presença feminina na construção civil, em todos os cargos, ainda representa 11% da força de trabalho no setor. Pode parecer pouco, mas, entre 2018 e 2023, esse número subiu cerca de 45%, passando de 193 mil para 279 mil.


Sobre o que move tantas mulheres a buscarem um lugar nos canteiros de obras, Bia resume o que ouve das alunas do Instituto Mulher em Construção. “Elas dizem que querem independência financeira, construir com as próprias mãos e reconstruir suas vidas. Tem também algo mais simples e profundo, é que elas querem ser donas da própria vida”, relata.


Karina Cândido destaca também que o maior desafio nunca foi aprender a técnica. O principal obstáculo ainda é o preconceito. “Muitas mulheres já começam na profissão tendo que provar o dobro. Ainda enfrentamos ambientes que naturalizaram a violência silenciosa com comentários, certa desconfiança e até desqualificação.”


O selo que homenageia as pedreiras foi o último da série Profissões. Iniciada pelos Correios em 2021, ela contemplou também as emissões sobre garis, bombeiros, merendeiras e chefs de cozinha. O objetivo foi o de dar visibilidade e expressar gratidão a profissionais que fazem parte do nosso cotidiano, mas que, muitas vezes, não recebem o devido destaque, apesar de desempenharem atividades cruciais para o funcionamento da sociedade.

Karina Cândido
 
 

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