Operação mobilizou equipes, motoclubes e cooperativas para transformar materiais descartados em reciclagem, compostagem, renda e economia circular
Por trás dos shows, das 370 mil motos e da circulação de 863 mil pessoas, uma complexa operação diária cuidou de tudo o que foi descartado na edição de 2026 do Capital Moto Week, realizada de 23 de julho a 1º de agosto. Durante os 10 dias de programação, o festival processou cerca de 42 toneladas de resíduos. Os materiais passaram por separação, coleta, pesagem, triagem e destinação ambientalmente adequada. Com 92,85% dos resíduos desviados do aterro, o CMW atende ao principal indicador para sua quinta certificação Lixo Zero consecutiva.
Além da circulação de dezenas de milhares de visitantes, 20 mil pessoas fazem do Capital Moto Week sua casa e, por dez dias, moram nas áreas ocupadas pelos motoclubes e nos espaços de camping. “O CMW é maior do que muitos municípios brasileiros e para fazer a gestão de todos os resíduos gerados aqui dentro, é necessária uma operação robusta e dedicada exclusivamente a isso”, afirma Juliana Jacinto, CEO do festival.
Segundo Kadmo Cortês, coordenador do programa Lixo Zero no Capital Moto Week e presidente do Instituto Desponta Brasil, considerando o fluxo diário e os serviços mobilizados, a estrutura necessária para atender ao público foi equivalente à de uma cidade de 85 mil habitantes. “Em uma operação dessa dimensão, o Lixo Zero não pode ser compreendido apenas como coleta e destinação de resíduos. Trata-se de um sistema integrado de governança que começa já no planejamento", afirma. Ele explica que, para atingir os objetivos, todas escolhas e etapas influenciam no resultado, desde compras responsáveis, escolha dos materiais, prevenção da geração dos resíduos, montagem, desmontagem, comunicação, logística e capacitação das equipes. “Cada núcleo, fornecedor, trabalhador e visitante participa diretamente dos resultados”, finaliza.
Separação começou com o público
Em pontos de maior circulação, principalmente nas praças de alimentação e na Avenida Principal, o público encontrava residuários lúdicos que apresentavam a metodologia “Mínimo 3”. O sistema dividiu os materiais em recicláveis secos, como plástico, papel, vidro e metal; orgânicos, como restos de alimentos e materiais compostáveis; e rejeitos, sem possibilidade de reaproveitamento. O uso de ecocopos reutilizáveis também integrou a estratégia para diminuir a quantidade de embalagens descartáveis.
A fisioterapeuta Giovanna Barreto, de 25 anos, afirmou que a iniciativa contribuiu para a limpeza e ainda ofereceu ao público uma lembrança do evento. “Além de ajudar o meio ambiente, a gente pode levar uma lembrança do festival para casa. É uma forma de evitar o acúmulo de latas e de outros resíduos”, contou. Giovanna também usou o copo nos pontos de hidratação espalhados pela Cidade da Moto e percebeu os resultados da iniciativa. “A quantidade de lixo espalhado é bem menor quando comparada à de outros eventos”, observou.
Equipes especializadas percorriam diariamente a Cidade da Moto para recolher os materiais segregados e encaminhá-los aos pontos de consolidação de cargas. A logística interna foi realizada por tuk-tuks equipados com carretas, incluindo um modelo elétrico.
Os resíduos eram levados até o Galpão 15. No local, as equipes realizavam o recebimento, a inspeção, a pesagem, o registro e o acondicionamento preliminar dos resíduos antes do encaminhamento aos responsáveis por cada tipo de destinação. Pesagens, registros e documentos permitiram acompanhar o caminho de cada material e produzir indicadores sobre o volume reciclado, a quantidade encaminhada à compostagem e a redução do descarte em aterros.
Recicláveis seguiram para cooperativas
Depois de passarem pelo Galpão 15, os materiais receberam diferentes destinações. Os recicláveis foram enviados à cooperativa Recicle a Vida. Os resíduos orgânicos foram encaminhados, ao longo da operação, ao Pátio de Compostagem Jardins Romero Melo, onde serão transformados em composto orgânico. Os materiais classificados como rejeitos, sem possibilidade técnica ou economicamente viável de recuperação, foram destinados ao aterro sanitário.
A gestão integrada dos resíduos gerados durante o festival contou com a participação da Central Centro-Oeste de Cooperativas de Materiais Recicláveis (CCO), formada por cinco cooperativas singulares. A CCO apoiou a operação com ações educativas, fornecimento de equipamentos, aplicação de metodologia e compartilhamento de sua experiência na gestão de resíduos de grandes eventos.
Na cooperativa, os sacos passam inicialmente por um processo de abertura mecânica. Em seguida, os materiais percorrem uma peneira de discos, que auxilia na retirada da fração orgânica remanescente, antes de seguirem para a esteira de triagem. Na esteira, a separação é realizada manualmente pelas catadoras, que classificam os materiais de acordo com suas características e possibilidades de comercialização, incluindo vidro, alumínio, papel, papelão e diferentes tipos de plástico. Posteriormente, os recicláveis são comercializados com indústrias de beneficiamento e transformação, que os utilizam como matéria-prima em novos processos produtivos.
Motoclubes assumiram a separação nas áreas de camping
Nas áreas privativas ocupadas pelos motoclubes, os próprios integrantes ficaram responsáveis pela separação dos materiais. Como as equipes de limpeza não entravam nesses espaços, os motociclistas organizaram os resíduos e colocaram os sacos nos pontos de coleta nos horários programados. Mais de 265 motoclubes montaram suas casas e participaram da edição de 2026. Juntos, formaram uma comunidade com cerca de 20 mil moradores temporários.
Integrante do Skolados do Asfalto, Luiz Antônio Silva Oliveira, de 69 anos, contou que a separação fez parte da rotina do grupo. “A gente separa o lixo orgânico do seco e coloca tudo em sacos diferentes. Cada um já sabe o que é orgânico, metal ou papel”, relatou. Ele também percebeu o resultado na limpeza dos espaços. “Neste ano está tudo muito limpo. A gente não vê lixo acumulado, apenas os sacos colocados nos pontos corretos. A equipe da limpeza está de parabéns, e o recolhimento está excelente”, afirmou.
Para incentivar a participação, os motoclubes receberam orientações sobre o sistema Mínimo 3 e participaram do Moto Game. A plataforma utilizou QR Codes e questionários para estimular boas práticas ambientais e reconhecer os grupos mais engajados. “Os motoclubes fazem a separação entre rejeitos, recicláveis e orgânicos. Alguns estão mais avançados do que outros, mas isso faz parte de uma jornada contínua de treinamento, capacitação e mobilização”, explicou Kadmo.
Festival calcula emissões de carbono
A gestão de resíduos integra uma estratégia ESG mais ampla do CMW. Além da jornada do Lixo Zero, o Capital Moto Week realizará também o inventário de suas emissões de gases de efeito estufa. O cálculo deverá considerar fontes relacionadas ao consumo e à geração de energia, à logística operacional, ao transporte terrestre, ao deslocamento do público e às viagens aéreas vinculadas à realização do festival.
O levantamento permitirá dimensionar o impacto climático da edição, avaliar as medidas de redução adotadas e orientar novas estratégias para os próximos anos. Após a mensuração, a organização prevê a compensação das emissões residuais por meio de projetos de reflorestamento e de outras iniciativas socioambientais capazes de produzir benefícios climáticos mensuráveis. A proposta é compensar um volume superior ao total de emissões apurado, de modo a buscar um saldo climático positivo.
SERVIÇO
Capital Moto Week 2027
Data: 22 a 31 de julho de 2027
Local: Parque Granja do Torto | Brasília | DF
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