Primeiro dia do evento teve encontro inédito de autoridades de turismo da América Latina e Caribe, lançamento de plataforma inovadora da Embratur e Sebrae, premiação dedicada ao afroturismo e uma programação alinhada ao tema central da edição
Abertura oficial WTM Latin America 2026, foto divulgação. |
A 14ª WTM Latin America – principal encontro da indústria do turismo na região foi oficialmente aberta nesta terça-feira (14) na cidade de São Paulo. Fundamentada no tema “Regenerar, Restaurar e Reconectar – Viajar com propósito”, a edição deste ano acontece até o dia 16 de abril no Expo Center Norte, na zona norte paulistana.
A solenidade de abertura reuniu autoridades, lideranças e profissionais do setor. No palco, Bianca Pizzolito, head da WTM Latin America, apontou que o turismo vive uma renovação e sugeriu a ampliação do olhar em relação às transformações. “Temos a tendência de olhar para mudanças como rupturas quando elas são também consequência de movimento e de escuta. A WTM Latin America nunca foi um evento estático, mas um organismo que observa, absorve, se adapta e evolui”, disse.
Bianca Pizzolito, foto divulgação. |
Bianca reforçou que o evento é uma plataforma que conecta, provoca, tensiona e abre espaços para que o mercado do turismo se manifeste em sua multiplicidade. “Acreditamos em nosso papel e, neste ano, trouxemos ao palco um grande debate: o turismo regenerativo. Um tema que está em evidência e que, mais do que tendência, é um convite à reflexão, pois não aponta para um único caminho, mas para muitos. E é essa pluralidade que interessa a nós e ao turismo”, pontuou.
A líder também destacou o evento como ambiente para debater os rumos do turismo latino-americano de forma integrada. “Somos um evento que acontece no Brasil, mas que se constrói a partir da América Latina. E, ao longo dos anos, vemos esse movimento crescer: mais presença, mais trocas, mais conexões, como se, pouco a pouco, a gente estivesse fortalecendo algo que sempre esteve aqui: a nossa capacidade de atuar como bloco”, ressaltou.
Claudio Della Nina, CEO da RX Brasil, organizadora da feira, ressaltou a importância dos eventos para a geração de oportunidades. “Essa indústria vai muito além de encontros pontuais: ela é uma plataforma de conexões em um ambiente que movimenta a economia, acelera setores e aproxima pessoas criando oportunidades reais. E são as pessoas que dão sentido a tudo isso”, disse, lembrando que a WTM Latin America ocupa um papel especial no portfólio da RX Global.
“A WTM Latin America é um ponto de encontro estratégico para toda a indústria de turismo da região. Um espaço onde conteúdo qualificado, inovação e networking se transformam em negócios, parcerias e crescimento. Estamos construindo ambientes que ajudam a moldar o futuro de vários mercados, transformando encontros em oportunidades, ideias em projetos e conexões em resultados”, resumiu.
Jonathan Heastie, diretor do portfólio de eventos de Viagem da RX Global, complementou a fala do CEO, lembrando que a indústria de turismo da América Latina ocupa um lugar muito especial no repertório da companhia, combinando diversidade, criatividade e capacidade de adaptação. “Isso se reflete na forma como o turismo vem se transformando. Vemos viajantes em busca de experiências autênticas e conectadas aos destinos e às culturas locais, considerando impacto, sustentabilidade e conexão com as comunidades. A WTM Latin America é uma plataforma que acompanha e antecipa os movimentos do setor”, finalizou.
Heloisa Schurmann, foto divulgação. |
Como é tradição, a WTM Latin America também trouxe conteúdo inspiracional. A convidada desta edição foi Heloísa Schurmann, pesquisadora, escritora e cofundadora da ONG Voz dos Oceanos, que aliou a vivência de sua família no mar ao trabalho em defesa dos oceanos para abordar a importância do turismo regenerativo, tema da WTM em 2026. Ao longo das décadas, a família realizou três voltas ao mundo e visitou mais de 70 países. Ao notar as transformações pelas quais o turismo passava no decorrer do tempo e os impactos negativos da ação humana na natureza, eles mudaram de postura. De meros observadores, passaram a atuar em defesa dos oceanos.
Na palestra, Heloísa defendeu o turismo regenerativo como alternativa capaz de envolver comunidades, ciência e visitantes na recuperação ambiental. Ao encerrar sua fala, ela apresentou os resultados da expedição realizada pela ONG: mais de 50 lugares visitados, centenas de projetos conectados, toneladas de lixo retiradas de praias e mares em oito países e 730 dias no mar, somando 17.520 horas dedicadas ao futuro do planeta. Diante dos profissionais do setor, ela fez um convite direto à ação: “Eu tenho muita esperança nas pessoas”, afirmou.
Marco histórico
Bianca Pizzolito, foto divulgação, |
Bianca abriu oficialmente o Ministers’ Summit e ressaltou a grandiosidade do encontro que estreia nesta edição da WTM com o objetivo de criar um espaço de articulação conjunta na América Latina. “Quando reunimos lideranças da região em um mesmo espaço, criamos a possibilidade de troca de experiências, de compartilhamento de desafios, de alinhamento de visões e de construção de caminhos comuns”, disse.
A primeira parte do encontro foi dedicada à apresentação dos destaques do estudo Shaping Sustainable Tourism – The Role of Observatories in Latin America and the Caribbean” (“Moldando o Turismo Sustentável – O Papel dos Observatórios na América Latina e no Caribe”, em tradução livre), produzido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com a ONU Turismo. Heitor Kadri, diretor do Escritório Regional da ONU Turismo para as Américas, destacou a relevância do estudo que será lançado nos próximos dias. Em seguida, Juliana Bettini, especialista sênior de turismo do BID resumiu os principais insights para as autoridades presentes.
Integrantes do Minister Summit, foto divulgação. |
Além de Gustavo Feliciano, Ministro do Turismo do Brasil, representantes de outros sete países participaram do encontro: Cristian Pos Damás, Diretor Nacional do Turismo (Uruguai); Gloria de Léon, Ministra do Turismo (Panamá); María Paz Lagos, Vice-ministra do Turismo (Chile); Miguel Aguiñiga Rodríguez, Titular da Unidade de Inovação, Sustentabilidade e Profissionalização Turística (México); José María Arrúa - Ministro de Turismo da Província de Misiones (Argentina); Harris Whitbeck, Ministro do Turismo (Guatemala) e Ernest Hilaire, Ministro do Turismo (Santa Lúcia).
O Ministers’ Summit contou ainda com um debate dividido em blocos e moderado por Mariana Aldrigui, presidente do Advisory Board da WTM Latin America, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo. Representantes dos oito países responderam às perguntas temáticas que incluíram conquistas e desafios do turismo em âmbito latino-americano, ações de inovação em torno do turismo regenerativo, conectividade, tecnologia e integração regional.
Painéis debatem o turismo regenerativo entre prática, ciência e mercado
O turismo regenerativo, tema central desta edição, foi abordado sob diferentes perspectivas em palestras e painéis espalhados pelos espaços de conhecimento.
O Transformation Theatre foi palco do painel “Regenerando para reconectar a América Latina”, que reuniu Ana Duék, diretora do portal Viajar Verde; Arvey Granada, Mestre em Marketing e Negócios Digitais; e Jorge Moller, Diretor do programa Global Tourism Sustainable Council.
Os especialistas destacaram a necessidade de a América Latina atuar como bloco integrado. “Somos um continente vivo e precisamos reconectar entre nós, viajar mais entre nossos países. Temos um grande potencial para criar uma identidade conjunta e restaurar o valor do encontro humano. Somos um continente maravilhoso e o turismo tem tudo para impactar de modo positivo as populações”, disse Jorge Moller.
Ana Duék observou que os latino-americanos estão, cada vez mais se reconectando com o continente e suas riquezas naturais, culturais e ancestrais. “Temos muito a descobrir e a trocar. Somos um continente muito rico. Precisamos, primeiro, restaurar a nossa visão sobre turismo e América Latina e, sobretudo, nossa mentalidade”, disse ela, enfatizando a necessidade de pensar o turismo a partir do destino e seus habitantes.
Para Arvey, além dos patrimônios naturais e culturais, a região tem como grande diferencial a hospitalidade de seus povos, que estão sempre de braços abertos. “Somos hospitaleiros. O que precisamos é sentir mais os nossos patrimônios e fortalecer o nosso pertencimento como povos diversos e, ao mesmo tempo, tão iguais. Compartilhamos as mesmas dores e culturas”.
Na palestra “Transformando Destinos Turísticos Através da Regeneração”, a presidente e Cofundadora do Instituto Aupaba, Luciana De Lamare, apresentou uma visão franca e desmistificadora sobre a essência e as consequências do turismo regenerativo. “É fundamental ouvir quem está no território que será impactado”, iniciou. Ela chamou a atenção para importância de ter uma visão sistêmica dessa vertente, saindo da lógica mercadológica para entender o território em seus diferentes níveis, necessidades e potencialidades. “Não podemos usar o turismo regenerativo como marketing, mas utilizar-se dele para promover melhorias reais”, adverte.
A especialista mostrou que territórios e negócios podem se transformar em experiências inovadoras, sustentáveis e capazes de gerar impacto positivo para comunidades e visitantes. Isso, lembrou a palestrante, passa pelo entendimento da espiritualidade em seu sentido de conexão entre pessoas e propósitos. “A consciência das dores e dos problemas é o primeiro passo para a renovação e conexão”, finalizou.
Fricções e intercâmbios entre a academia e o mercado deram o tom do painel “Turismo Regenerativo: discussões e prática”. Sob a mediação de Jaqueline Gil, pesquisador do LETS-UnB, a conversa reuniu os acadêmicos Loretta Bellato, Pesquisadora Adjunta, Swinburne University of Technology; Dr. Cemil Kilic, Diretor, Istanbul Convention and Visitors Bureau; e Thiago Allis, Professor Associado de Lazer e Turismo na Faculdade de Artes, Ciências e Humanidades da EACH – USP.
Pioneira no estudo do tema, Loretta destacou que o turismo regenerativo deve catalisar e impulsionar a vida do lugar, refletindo na saúde e bem-estar, e orientou: “A comunidade precisa sempre direcionar as decisões de modo que as intervenções proporcionem integração e alinhamento com os processos naturais”, disse, pontuando que o turismo regenerativo é um movimento global em plena expansão.
Jamil ressaltou a importância do turismo para recuperar a história e os valores sociais, culturais e econômicos. “O turismo regenerativo permite que um destino se reposicione por meio de sua história e patrimônios. Para que isso aconteça é imprescindível colocar a comunidade no centro, gerando pertencimento e ocupação dos espaços”, defende.
Já Thiago Allis lembrou que é preciso trazer o turismo regenerativo para o dia a dia das empresas e das relações em seus diferentes espaços e laços comunitários. “O Brasil é uma referência em turismo comunitário. O turismo abre muitas possibilidades e caminhos, e precisamos trabalhar para que isso seja feito da melhor maneira possível, gerando riquezas e valorização”.
No espaço Technology & Innovation Theatre, Daiane Dunka, head de Travel da Google, mostrou como a mobilidade, consumo e contexto de vida ressignificados estão redefinindo o mercado de viagem e abrindo oportunidades. Em meio às mudanças provocados pela IA, a especialista apontou que o foco precisa sempre ser o consumidor. “Entender o pulso, necessidades, angústias e desejos é fundamental. Não temos de ter medo das mudanças, mas olhar para elas com a percepção de que podemos aprender mais, pois tudo está mudando ao mesmo tempo”, sugere.
O dia também foi marcado pelo lançamento oficial da “Desbrava”, plataforma criada pela Embratur em parceria com o Sebrae para apoiar a internacionalização do turismo brasileiro e democratizar o acesso de destinos e empresas nacionais de diferentes portes ao mercado turístico internacional. A plataforma reúne capacitação, inteligência de mercado, dados, conteúdos estratégicos e uma comunidade digital, com o objetivo de preparar desde microempreendedores até grandes empresas do trade turístico para atuar de forma qualificada e alinhada no cenário internacional, o que também visa fortalecer a competitividade do Brasil no cenário internacional.
Outro momento importante na programação foi a entrega da quarta edição do Prêmio de Afroturismo Guia Negro. Patrocinada pela Embratur, a iniciativa celebrou destinos, iniciativas e profissionais relacionados ao afroturismo brasileiro que se destacaram em 2025. Os premiados deste ano foram: CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (Empresa Parceira do Afroturismo); Benim (Melhor Destino Internacional); Lucas de Matos (Melhor Conteúdo de Afroturismo); Museu das Favelas (Melhor Atrativo ou Experiência Turística); Brasília Negra (Melhor Experiência Brasil Adentro); Dida Bar e Restaurante (Melhor Empreendimento de Afro-empreendedor ligado a Afroturismo); Bitonga Travel (Melhor Empresa de Afroturismo); Melhor Destino Nacional (São Luís/MA) e Helcias Pereira, guia de afroturismo de Palmares (Destaque Guia Negro).




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