Viva a sociedade civil organizada

 Há um silêncio que se espalha pelo Brasil — não é o silêncio da apatia, mas o da lucidez. É a sensação de que a política partidária, do jeito como tem sido praticada, já não consegue traduzir a complexidade de quem trabalha, empreende, cuida da família, paga impostos, forma equipes, atende clientes, constrói reputação e, ainda assim, tenta acreditar no futuro. É desse lugar que escrevo: não me sinto representado por nenhum partido político. E, ao contrário do que muitos imaginam, não me sinto sozinho.

A ausência de identificação partidária não é sinônimo de ausência de valores. Pelo contrário: muitas vezes é um sinal de que os valores estão mais vivos do que os slogans. O que falta não é opinião; falta correspondência. Falta reconhecer, nos partidos e em seus discursos, uma conexão prática com as urgências do cotidiano: segurança com inteligência, educação com foco em resultado humano, saúde com respeito a quem atende e a quem é atendido, responsabilidade fiscal com compromisso social, inovação com ética, preservação ambiental com desenvolvimento economicamente viável. Falta ver o país real no centro das decisões — não apenas como cenário de disputa, mas como destinatário de soluções.

Quando digo que não me sinto representado, não estou fazendo um manifesto “contra a política”. Estou dizendo que o modelo de mediação política — a forma como partidos estão organizados, selecionam lideranças, definem prioridades e se comunicam — tem produzido um desalinhamento crescente com a sociedade.

A consequência é um fenômeno silencioso: uma multidão de pessoas que continua respeitando as instituições, mas já não se sente pertencente aos rótulos. E isso não ocorre só entre eleitores. É provável — e até compreensível — que muitos parlamentares, da Câmara de Vereadores ao Senado Federal, também experimentem esse desconforto: pressionados por coalizões, por dinâmicas internas e por uma lógica de “time” que, muitas vezes, sufoca o que deveria ser central: a entrega de políticas públicas consistentes.

Há, inclusive, um paradoxo que precisamos enfrentar: a democracia depende de partidos, mas a vida real raramente cabe em uma legenda. A realidade não é monocromática; ela é feita de nuances. Um mesmo cidadão pode defender responsabilidade fiscal e proteção social; pode querer estado eficiente e também políticas públicas robustas; pode apoiar desenvolvimento e preservação; pode ser conservador em alguns pontos e progressista em outros — sem que isso o torne incoerente. A incoerência, muitas vezes, está no sistema que exige “pacotes prontos” e reduz a cidadania a um placar.

O que fazer diante disso? O primeiro passo é abandonar a culpa e assumir a responsabilidade: não se sentir representado é um diagnóstico, não uma sentença. O segundo passo é criar novas formas de participação e controle social que não dependam apenas do “voto a cada quatro anos”. A política precisa voltar a ser, antes de tudo, um exercício de serviço — e serviço se mede por resultado, transparência e prestação de contas. A sociedade tem instrumentos para isso: conselhos, audiências públicas, associações, entidades setoriais, movimentos comunitários, imprensa séria, redes colaborativas, controle social com base em dados. O associativismo — quando é sério e comprometido com o interesse público — é uma escola de democracia: ensina a negociar, a construir consenso, a manter foco no que importa.

Também é hora de valorizar lideranças que não vivem de guerra permanente. O Brasil não precisa de salvadores; precisa de gestores de complexidade: gente capaz de ouvir, traduzir, pactuar, implementar e corrigir rota. Em qualquer esfera — municipal, estadual ou federal — o que falta não é fala; é método. E método se constrói com transparência, evidência, metas, indicadores e avaliação. Quando uma política pública dá certo, ela precisa ser replicada; quando dá errado, precisa ser revista sem teatro.

Eu não me sinto representado por nenhum partido político, mas me sinto representado por valores: dignidade humana, verdade como método, compromisso com resultado, respeito às diferenças, responsabilidade com o dinheiro público, ética na gestão, e uma crença simples — porém exigente — de que é possível fazer melhor. Se muitos parlamentares também se sentem deslocados dentro das engrenagens partidárias, talvez esteja aí um ponto de convergência: um convite à coragem de reorientar prioridades, reduzir a lógica do “nós contra eles” e recolocar o cidadão como razão de existir do mandato.

E aos que, como eu, se sentem fora das caixas, deixo uma certeza: você não está sozinho. Existe um Brasil imenso que quer menos grito e mais entrega; menos rótulo e mais responsabilidade; menos espetáculo e mais serviço. Não é pouca coisa. É, talvez, a base mais promissora de uma renovação verdadeira: aquela que não se anuncia em campanha, mas se pratica todos os dias — com coerência, com trabalho e com respeito ao país real.

*Luiz Henrique Arruda Miranda é Comunicador Social e CEO da Agência Amigo – Comunicação Integrada, publisher do Portal do HoteleiroCrédito: Imagem Blogger Show Vip. Legenda: Click! ou Clic clac!

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