35ª Bienal de Arte de São Paulo








Mirtes de Moraes Corrêa
Professora do curso de Publicidade e Propaganda do Centro de Comunicação e Letras (CCL) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Leslye Revely
Professora do curso de Publicidade e Propaganda do Centro de Comunicação e Letras (CCL) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).


 

A Bienal de São Paulo, uma das mais importantes e prestigiadas exposições de arte contemporânea do mundo, apresenta sua 35ª edição, intitulada “Coreografias do Impossível”. Nela, é possível observar uma diversidade artística que busca promover diálogos culturais.

 

O título “Coreografias do Impossível” evoca uma sensação de movimento, de dança e de fluidez, como uma forma de desafiar limites. Essa Bienal buscou não apenas apresentar obras de arte, mas também criar formas de narrativas, que podem ser traduzidas em coreografias, buscando envolver o espectador de diversas formas, provocando-o a pensar, contemplar e questionar o mundo, em constante transformação.

 

Esculturas, pinturas, instalações, performances e novas mídias se fundem nas curvas arquitetônicas da Bienal, permitindo que os visitantes explorem o espaço, desafiem convenções e questionem o que é considerado impossível.

 

Além das exposições tradicionais, a 35ª Bienal de São Paulo também promove uma série de debates, palestras e workshops que abordam questões contemporâneas críticas, como a decolonização, mudança climática, desigualdade social, migração e o impacto da tecnologia na sociedade. Essas discussões prometem enriquecer a experiência dos visitantes, convidando-os a refletir sobre o papel da arte na reflexão desses desafios globais.

 

Assim, a 35ª Bienal nos faz lembrar que, no mundo da arte, não há limites para a crítica, nem para a imaginação, e o impossível pode ser coreografado em narrativas de descobertas e reflexões.

 

A arte contemporânea se caracteriza pela amplitude de linguagens e temas que atravessam suas constantes e necessárias discussões locais, o caráter processual também se faz presente e que se estende além de amarras cristalizadas na contemplação visual ou no tecnicismo. A transgressão de uma temática política e social é muito mais evidente e latente do que uma grande habilidade manual do artista. Assim, os desenhos gráficos, que criam o título-tema desta Bienal, são marcados por elementos que remetem a trança de cabelo, o significado da ancestralidade africana do artista ​​Nontsikelelo Mutiti, de Zimbabue, produzindo uma padronização com tanta fluidez, que reflete a essência da exposição, assim como os fios de cabelos, quando atravessam o pente, caem e sobem em seu movimento natural.

 

“Coreografias do impossível”: a tipografia, o título, a disposição das obras e toda a iluminação da 35ª Bienal de Arte de São Paulo lhe convidam a dançar pelo espaço. Não há ordem ou delimitações muito evidentes dos caminhos, das entradas e saídas. O visitante/espectador traça e “trança” seu destino. As obras aparecem no meio dos acessos, nos andares, nas salas, entre as paredes brancas e nos quartos escuros entre esculturas, fotos, pinturas, áudios e vídeos. Sair e entrar é uma opção fluída e leve. Há muitos espaços entre as obras, talvez aí habite o impossível que será refletido e construído pelo público.

 

Quanto às coreografias, elas são da curadoria e do despertar de estímulos que cada palavra, matéria, conceito, estrutura e composição nos apresenta. A curadoria foi coletiva, sem hierarquias, porém não pretendeu seguir uma simples homogeneidade. Para as decisões, foram consideradas trajetórias, formação e área de atuação que cada curador possui para as decisões dos processos colaborativos. Não há pensamento cronológico nas escolhas, mas um respeito e conversas com as próprias curvas da arquitetura de Oscar Niemeyer, brincando com inversão de pavimentos, com envelopamentos do famoso vão central, e as janelas à mostra dialogando com a natureza do Parque Ibirapuera. O desenho dos caminhos favorece tudo, desde a pausa, a correria, o devagar, na promoção de ritmos diversos do olhar, do corpo e da disposição de quem acessa a exposição.

 

Não é à toa que uma rampa te convida a desenhar as letras na parede assim como uma dança, reconhecendo as palavras e desconstruindo linguagens, com o dançarino e coreógrafo Wills Rawls. As obras do teto à parede de Mahku, uma iconografia mítica, multicolorida e vibrante. Ou o vídeo em cenas em círculo com os barcos de Manuel Chavajay com questionamentos sobre a comunidade. As esculturas em grande escala que atravessam o caminho de Klidat Tahimik, apresentando choques entre símbolos clássicos e culturas atuais, uma grande cena trágica e monumental de teatro em madeira e materiais diversos. Um chão rosa para pisar descalço do artista português Carlos Bunga, nos convidando a andar e habitar na cor. Ou até mesmo os vasos que interrompem a entrada principal com um trilho de trem, de algo que parte de algum lugar para outro, de Ibrahim Mahama, com elementos que remetem a colonialidade em movimento para uma possível transmutação de conceitos.

 

No caminhar, percebemos que muitas obras promovem ao espectador um ritmo traçado entre tempo e contratempo, entre o presente e o passado, entre histórias contadas e veladas. No vídeo, Yuri u xëatima thë (a pesca com timbó), representado pelo cinema indígena Yanomami, nos lança olhares sobre os rituais de pesca, expondo formas de vida que foram apagadas e negligenciadas pela história.

 

O povo palestino também ganhou tema em diversas formas de representação artística, no trabalho de Amos Gitai. O espaço arquitetônico revela uma dimensão política, narrando por meio de um documentário, reflexos das relações entre israelenses e palestinos, a partir das transformações de uma casa em Jerusalém.

 

A reunião de mulheres artistas, sobretudo, pretas, promovem um diálogo sobre aquilo que o tempo silenciou. A artista Aline Motta recupera vozes e vestígios de sua herança escravocrata e a força matriarcal.

 

A comida é servida pela Cozinha Ocupação 9 de Julho, nascida de um edifício ocupado por 500 pessoas do MST – Movimento Sem Terra, representando a força do trabalho em coletivo e da solidariedade, o direito à moradia e à comida. Mais político e social impossível, ou possível, dentro do quanto as questões levantadas são tão urgentes e necessárias.

 

A ideia é, de passo a passo, considerar o impossível e, de repente, descobrir novas coreografias, aquelas ainda desconhecidas, mas que nos apontam caminhos diferentes dos já sabidos. Assim, a Bienal se faz presente como nasceu, de dois em dois anos, desde 1962, misturando artistas, temas, tempo e conceitos para que nosso olhar saia da inércia e costure atitude cidadã e sensível para ver, entender e repensar o mundo com novos e afiados olhares desses artistas provocadores.

 

*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.

 

Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie  

 

A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) está na 91ª posição entre as melhores instituições de ensino da América do Sul, segundo ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking – edição 2024. Comemorando mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pelo Mackenzie contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.

 

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