SOUJI - UM HÁBITO SALUTAR

Quem não sente repugnância, e, sobretudovergonhados inúmeros metros cúbicos de lixo que invariavelmente se acumulam no chão depois que passam os blocos de Carnaval, que acabam os shows de música ao ar livre, ou que terminam os protestos políticos? – Com certeza, aqueles que os jogaram não os têm.
É uma triste realidade que poderá entupir mais de um bueiro – nossos lixeiros são verdadeiros heróis – e que viraliza pelos meios de comunicação; em especialpelas redes sociais.
Em contrapartida, lembra o que vimos pela TV na Copa da Rússia?
Não? Ora, eram os torcedores japoneses recolhendo o próprio lixo depois de assistirem à sua seleção jogar futebol. Recolhiam-no, tivessem ou não ganho jogo.
O recolher o próprio lixo tem um nome, souji, que pode ser traduzido por limpeza, varrição.
Esse hábito é aprendido, inclusive, nas escolas japonesas, onde as crianças realizam tarefas como a de limpar banheiros, varrer o chão e lavar a louça, em um sistema de rodízio coordenado por seus professores. E isso acontece sem a menor resistência porque essa prática vem sendo ensinada de geração em geração.
E aqui, uma dúvida que talvez pairasse: Será que essa prática vem sendomesmo, ensinada de geração em geração? Em outras palavrasquão remoto ela seria que justificasse pensarmos em posteridade, descendência, hábito?
Pois qual não foi a minha (agradabilíssima) surpresa quando li, da minha querida amiga Eliane Machado, a primorosa obra Um olhar na história – 110 anos da imigração japonesa no Brasil, em que foi transcrita uma notícia veiculada pelo jornal Correio Paulistano, de 25/06/1908, sobre a primeira leva de imigrantes japoneses vinda à bordo do Kasato-Maru, e que, se não responde totalmente àquelas questões, por certo indica que se trata, sim, de uma prática muito, mas muito antiga! Eis a matéria, na grafia original:
Vieram para S. Paulo no dia 19, desembarcando nesse mesmo dia do vapor que os trouxe. As suas camaras e mais accommodações apresentavam uma limpeza inexcedível. É preciso notar que se trata de gente de humilde camada social do Japão. Pois houve em Santos quem affirmasse que o navio japonez apresentava na sua 3.a classe mais asseio e limpeza que qualquer transatlantico europeu na 1.a classe. [...]
“Ao desembarcarem há Hospedaria de Immigrantes sahiram todos dos vagões na maior ordem e, depois de deixarem estes, não se viu no pavimento um só cuspo, uma casca de fructa, em summa, uma cousa qualquer que denotasse falta de asseio por parte de quem nelles veiuSahiram na maior ordem, depois de quatro horas de viagem em trem especial de Santos a S. Paulo.” (Pp.36-40).
Fala a verdade, amigo leitor, essa matéria nos faz pensar o quanto ainda teremosque correr atrás do prejuízo, pois não?
Seja como for, esta outra notícia, assinada por Fernando Duarte, do Serviço Mundial da BBC em São Petersburgo, em 26/06/2018, acaba nos reconfortando e nos enchendo de esperança: 
“Torcedores do Senegal e do Brasil também foram filmados recolhendo o próprio lixo. ‘Para nós, é um honra que outros países também estejam fazendo souji. Nós esperamos que outros torcedores se inspirem a fazer o mesmo’, diz Chikako.”
E como nunca é tarde para incorporarmos o que é bom, miremo-nos nessestorcedores e sigamos adiante, praticando souji e ensinando-o aos nossos filhos. O Brasil e as futuras gerações agradecem.

SOUJI - UM HÁBITO SALUTAR SOUJI - UM HÁBITO SALUTAR Reviewed by Dias on março 28, 2020 Rating: 5

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